Autor: erikahirs@gmail.com

  • Domingo, 10 de maio de 2026.

    Na quarta-feira vou para Rio Preto celebrar o Dia das Mães. Sempre que viajo — e são poucas viagens desde que nos mudamos para cá, quase todas para a cidade da minha família — sou tomada por uma angústia leve que fica pairando pelos dias até o momento em que coloco a mochila nas costas e entro no ônibus.

    Então começa uma antiga peregrinação: um trânsito por um mundo do qual já não faço parte, e talvez nunca mais faça. Um mundo do qual, de fato, nunca senti que fiz parte; que apenas testemunhava acontecer, com estranhamento, quando ainda não tinha encontrado o meu lugar.

    O estranho de peregrinar por Rio Preto é que essa sensação de estar fora do meu lar acontece justamente no meio da familiaridade amorosa de estar com minha mãe, meus irmãos, meus sobrinhos, minha avó. Há algo nisso que mexe com lugares sem nome dentro de mim.

    No último final de semana, a Claudia esteve aqui. Já no primeiro dia conversamos sobre coisas difíceis; outras, exorcizamos. Na fogueira da segunda noite, tirei um I Ching para uma pergunta íntima e silenciosa — certamente, no meu caso, sobre como atravessar essa viagem. Veio o hexagrama 58, Tui, a Alegria.

    Desde então, algo assentou dentro de mim. Sem isso, eu provavelmente teria passado a semana me arrastando entre pensamentos sobre a finitude das coisas e a irritação por ter que sair do meu canto.

    Mas vou ver minha família na semana que vem, e estou feliz, apesar de toda a dificuldade e desconforto do percurso. Ainda mais agora, que o frio está começando, e a baldeação na rodoviária aberta e gelada de Campinas promete um resfriado. 

    Mas hoje terminei um gorro de lã laranja para usar na viagem. É o meu segundo gorro de crochê: o primeiro foi um cinza, para o Li, feito depois do sexto xale. E então quis colocar uma etiquetazinha de couro sintético nas peças que faço, com o nome do sítio, e um logo com os símbolos ligados ao que ele significa para nós. O Li me ajudou a desenhá-lo, e daí veio a vontade de fazer este site: um lugar onde eu possa reunir tudo o que me toca e me comove nesta vida que inventamos juntos. E assim, estamos aqui. Recolhidos, inicialmente. Protegidos de olhos curiosos. Com o tempo, quem sabe não abrimos a nossa porteira para futuros leitores?